Dinâmica Espacial em Sótão Lisboeta
Era uma vez um sótão precário, claustrofóbico e escuro, onde durante muitos anos funcionou uma pequena editora italiana. O espaço, que já não era grande, estava ainda mais confinado devido à compartimentação excessiva feita à base de frágeis divisões de madeira.
Quinta, 2 de Fevereiro de 2012 às 16:02
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Fechada durante algum tempo e colocada no mercado para venda, a casa estava longe de ser habitável. Mas a sua futura proprietária conseguiu ver mais além e com a ajuda do arquiteto que a acompanhou antes de fechar o negócio imaginou um espaço simultaneamente acolhedor e de aspeto industrial, ao melhor estilo dos lofts nova-iorquinos.
João Tiago Aguiar, do ateliê João Tiago Aguiar Arquitetos, soube materializar este sonho e transformou as acanhadas águas-furtadas num apartamento moderno, surpreendente em luz natural e em área e nas soluções propostas.
"Andava há procura de terraços em Lisboa, na perspetiva de encontrar uma casa com espaço exterior, que fosse diferente. Acima de tudo, não queria um caixote igual ao caixote do lado e ao caixote de cima. Quando encontrei este espaço - e mesmo assemelhando-se a um bunker - fiquei fascinada, porque sempre gostei de lofts, armazéns e afins", recorda Sofia Lopes Dias, dona do apartamento.
Situadas num edifício com 80 anos, muito bem localizadas em Lisboa, na rua Rodrigo da Fonseca, estas águas-furtadas mantiveram apenas os elementos estruturais, tendo sido demolido todo o interior.
"A cliente queria um espaço amplo, com poucas divisórias, de livre circulação. Assim, retirámos os tetos falsos e assumimos a estrutura. O telhado foi recuperado, rasgámos os vãos o máximo que se podia até ao chão e fizemos um deque que dá a sensação que a casa se estende lá para fora. O taco que reveste o chão uniformiza o espaço e cria um plano único", especifica o arquiteto.
A luz tornou-se uma prioridade primordial e, assim, as pequenas frestas de outrora deram lugar a largas janelas. Estas aberturas descem ao nível do deque que foi criado no exterior e que circunda todo o apartamento como uma grande varanda.
Em alguns pontos-chave foram inseridos lanternins que asseguram mais focos de luz.
Para separar a zona social da cozinha, o arquiteto aproveitou a divisória estrutural preexistente, assente em robustas vigas e adaptou-a a uma lareira de toque contemporâneo.
Ainda na sala, criou-se um estimulante jogo de ilusão ótica incorporado nos armários bicolores da sala, uma ideia inspiradora que João Tiago Aguiar desejava há muito aplicar num projeto. "É como se estes armários tivessem uma pele viva... À medida que se percorre o espaço, os armários são apreciados de maneira diferente e criam um efeito surpresa. Quem entra na sala, vindo da entrada do apartamento, observa-os a negro, mas quem está na cozinha e se direciona para a entrada vê-os totalmente brancos". Na área da sala comum, de generosas dimensões, encontra-se a cozinha, em open-space, e também esta serve como elemento diferenciador. Totalmente preta, quebra a brancura da casa e faz jogo com os armários 'mágicos' da sala, quando estes são observados na perspetiva de quem entra na habitação.
Já na suite principal, rouba-nos a atenção a transparência da cabina do duche, instalada sem pudor em local de destaque. O resto do equipamento sanitário resguarda-se discretamente por detrás desta cabina.
Hoje predominante em todas as áreas, a luz natural assegura fluidez e leveza a este sótão reconvertido.
Texto: Marisa Antunes