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Singularidade Alentejana

É um segredo bem guardado, este local tão perto do Torrão, localidade a poucos quilómetros de Alcáser do Sal e Évora.
O cenário é tranquilo; o terreno abunda. Por ali, vimos javalis, águias e Lontras. Espantoso! Neste cenário, bem português, encontra-se esta casa especial, desenhada e construída com muita paixão e o maior respeito pelo lugar que a acolhe.

Sexta, 22 de Junho de 2012 às 16:51

O rio xarrama passa ali ao lado... respira-se serenidade e ar puro; apreciam-se fauna e flora locais, com efeito, somos surpreendidos pela diversidade de animais selvagens que por ali se passeiam, indolentes (e indiferentes à nossa estada). Cegonhas, águias, javalis e lontras ocupam o terreno, e reforçam o espírito de santuário ecológico que apaixonou o arquiteto, proprietário e autor desta casa.
Fora do seu registo mais habitual, José Quintela - que é responsável por todos os projetos dos centros comerciais da Sonae Sierra - desenhou uma casa talhada para o lazer e para o descanso, em grande comunhão com o local onde se integra. Uma comunhão tão grande que a própria cor que veste as fachadas do edifício resultou de uma meticulosa análise cromática da terra que acolhe a moradia; uma comunhão tão imensa que toda a tijoleira do pavimento que ali foi colocada foi produzida manualmente, durante meses, e cozida em forno de lenha em Évora, segundo técnicas de outros tempos.
Carinhosamente batizada de 'Montinho', a propriedade abrange uma área de 2,5 hectares, inserida em zona ecologicamente protegida, o que serviu de base de inspiração ao arquiteto José Quintela. A casa, com  cerca de 700 m2 de área bruta de construção, desdobra-se em quatro espaços que se interligam mas mantêm a sua independência. Por isso, como diz o arquiteto, ali "não existem quartos de hóspedes mas sim casas de hóspedes".
"Quando vim ver este lugar pela primeira vez, senti que isto estava parado no espaço, estava parado no tempo. Comecei a olhar para o rio, para as suas margens, a apreciar os animais, a apreciar o lugar... depois foi deixar o lápis à solta para fazer fluir o projeto", recorda.
Uma fluidez que teve como base de orientação a sintonia com o local de implantação. "Da igreja do Torrão fui retirar as proporções do torreão da casa - achei que fazia falta um torreão aqui. Antes da construção, colocámos andaimes, à altura do torreão, vi as vistas e achei que aquele seria um local fantástico para fazer uma almoçarada ou dormir uma sesta", graceja o arquiteto.
Outro ex-líbris da casa é toda a ala que integra o antigo moinho de três arcos, datado do século XIX e que já existia no local. Um moinho feito em taipa e em cuja construção nova, para acolher a suite principal, se manteve também este material. Aqui, destaque-se o teto em madeira que assegura o toque rústico ao espaço e o pavimento do quarto, onde se conseguem vislumbrar as mós do moinho ali incorporadas. Todo o pavimento da casa, contudo, é de destacar. "Descobrimos um forno de lenha em Évora e todas as tijoleiras interiores e exteriores foram cozidas, ao longo de meses, por uma empresa familiar. As tijoleiras são irregulares, as cores não são constantes tal como as suas texturas, mas são absolutamente lindas", sublinha.
Dentro do mesmo espírito, os muros que ladeiam a propriedade foram totalmente concebidos com pedras locais apanhadas no rio ou nas suas margens. O sentido de pertença ao local levou o arquiteto ao pormenor de mandar fazer um estudo cromático da cor da terra onde se implantou a casa para conceber a tinta que a revestiu.
De forma a garantir a sustentabilidade energética, equipou-se a casa com painéis solares e colocou-se um depósito de aproveitamento das águas no torreão.
"O edifício foi desenhado para ser totalmente autossustentável, com gerador, painéis solares, turbina... Só agora, que decidimos colocar a casa em comercialização é que resolvemos instalar energia elétrica, de modo a abranger um maior leque de interessados". No interior da habitação, a amplitude é uma constante, o que permite uma ventilação transversal, e reforça o seu carácter autossustentável.
"Com efeito, a totalidade da casa, com exceção da suíte, no antigo moinho, beneficia de um duplo pé-direito. Além disso, todas as habitações incluem um mezanino". Diz, com graça, José Quintela, que ali não existem quartos de hóspedes, mas sim "casas de hóspedes".
Um achado especial, um reencontro com a natureza, um regresso ao passado não muito longínquo sublinham a beleza deste projeto. Por dentro e por fora.

Texto Marisa Antunes
Fotografia
Ricardo Oliveira Alves

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